2.ª Mostra de Cinema Brasileiro

By oonline

Maria Nascimento 

Exactamente um ano e um dia depois da 1ª mostra de cinema brasileiro, a abertura da 2ª mostra possibilitou aos espectadores portugueses, estrangeiros, residentes (ou não) na área de Lisboa a assistir a 11 filmes que, na sua maioria, não são conhecidos do público português  e nem chegaram ou virão a chegar às nossas salas.     

Escolhida para a abertura da amostra foi a comédia “Saneamento básico” do argumentista e realizador brasileiro Jorge Furtado, a quem foi dedicado o primeiro dia da amostra aberto ao público. Esta obra, a mais recente do cineasta, tem como cenário uma pequena vila denominada Linha Cristal. O argumento gira em torno dos esforços e peripécias que alguns dos habitantes da pacata vila têm de ultrapassar para obter o dinheiro que lhes irá possibilitar construir uma fossa no riacho, para acabar com o mau cheiro que se instalou na sua região. Escrever e fazer um vídeo de ficção, cuja verba para o efeito é a única que a sua Prefeitura disponibiliza no momento em que a ela recorrem, é em que consiste a principal tarefa das personagens que nada percebem da indústria do audiovisual e apenas tentam fazer um filme de baixo orçamento e simultaneamente didáctico.     

 O filme não só está repleto de momentos de grande humor mas, também de caras conhecidas dos telespectadores portugueses como as actrizes Camila Pitanga e Fernanda Torres.      

Uma boa escolha para os espectadores que gostam de comédias de qualidade, na exibição pós-abertura da mostra, o filme encheu consideravelmente a sala com espectadores que saíram satisfeitos com o que viram e de muito melhor humor.            

  “O Homem que copiava”, filme escrito e realizado por Jorge Furtado, que desde 2003, é exibido a cinéfilos de vários cantos do mundo. Entre nós só pôde ser visto pelos sortudos que assinam ou têm acesso aos canais Premium da tvcabo. Este foi outro dos filmes de Jorge Furtado projectado na Sala 1 do São Jorge. O drama narrado pelo filme é o da vida e “obra” de André, um falsificador amador de dinheiro, e do seu grupo de amigos. Capaz de prender um espectador ao ecrã durante os 124 minutos do filme, a forma como a vida dos protagonistas nos é contada e mostrada faz-nos desejar que as luzes da sala não se acendam durante os créditos finais como prova de que o filme acabou.     

O filme é um testemunho de como o cinema brasileiro está em alta e de que se não estivermos atentos deixaremos de ver muitas obras que podem marcar as nossas vidas. Uma história simples, apesar das complicações que as personagens têm de ultrapassar, e original, contada pela voz do seu protagonista e, cujo final desvenda aspectos que não passaram pela nossa cabeça nem pela dele é aquilo com que se depara quem vê o filme.  

 Esta 2ª mostra de cinema brasileiro terminou quase com sala cheia. Vários espectadores estiveram presentes para ver “O Ano em que meus pais saíram de férias”, de Cao Hamburger, que possui a particularidade de ser a indicação brasileira para concorrer à estatueta de Melhor filme estrangeiro na próxima edição dos Óscares.      

Esta segunda longa-metragem do realizador, na mostra anterior esteve presente a primeira, “Castelo Rá-Tim-Bum”, é um trabalho comovente e divertido acerca da vida de um rapaz chamado Mauro e das pessoas com quem ele é obrigado a conviver, no ano de 1970, aquando da morte do avô, com quem os pais decidiram deixá-lo ao “partir de férias”. A comunidade do Bom Retiro onde habitava o avô de Bruno é constituída por residentes de uma grande variedade cultural que sem saberem como contactar os seus pais acolhem-nos.

Cabe a um velho judeu, vizinho do seu avô, ficar como seu tutor. Enquanto espera pelos pais que prometeram regressar antes do campeonato mundial de futebol, Bruno tem de habituar-se à nova vida e ao seu tutor temporário. A relação entre ambos não começa da melhor forma e é lentamente que vão-se habituando um ao outro. Entretanto Bruno trava amizade com Hannah e o seu grupo de amigos, são estes que o apresentam à comunidade e passam a ser os seus companheiros quando não está colado ao telefone esperando que os pais liguem. Bruno, interpretado por Michel Joelsas, amadurece ao longo do filme contrastando com a situação política do país, que motivou a partida dos pais e tarda em modificar-se. A repressão política é um tema presente no filme, raramente é abordado e, normalmente, apenas por sussurros. Uma das melhores cenas do filme envolve as forças policiais e os estudantes comunistas.      

Obra consistente e bem construída agrada facilmente quem gosta de bom cinema e fechou em grande a 2ª mostra de cinema brasileiro. Caso fique entre os 5 nomeados à categoria de Melhor filme estrangeiro na próxima corrida aos Óscares tem potencial e qualidade mais que suficiente para vencer.  
 
 
 
     Ficaram filmes por ver, nomeadamente os filmes com realização a cargo de Daniel Filho; “Se eu fosse você”, “O Primo Basílio” e a “Partilha”, todos exibidos no terceiro dia da mostra, entre outros, mas o que foi visto foi show de bola e para o ano haverá mais. 

Uma Resposta para “2.ª Mostra de Cinema Brasileiro”

  1. Ana Diz:

    Conciso, interessante e bem escrito. Espero ler mais artigos da tua autoria.

    ;)

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